Abdias do Nascimento e o Teatro Experimental do Negro

Ou sobre Teatro Brasileiro, Ancestralidade e qual é o país que temos e o país que queremos?

Eu não abandonei o negro porque tanto o teatro quanto a pintura são apenas instrumentos que eu uso para valorizar, para projetar os valores da cultura africana no Brasil. Abdias do Nascimento

Até as primeiras décadas do século XX, a presença negra nos palcos brasileiros ou era invisível ou era caricata, com uma imagem deformada e estereotipada da pessoa afrodescendente. Bem como, marcada pela quase total ausência de uma dramaturgia ou performances em que se buscasse a vivência da negritude ou fábulas que trouxessem a riqueza do conhecimento africano e de sua cultura sem a interferência das invasões e agressões causadas pela colonização brutal europeia. Neste viés, o palco mimeticamente se recriava como imagem refletida de uma sociedade excludente com uma mentalidade racista e discriminatória nas suas narrativas e em seus artifícios de espetacularização.

Em 1914 nasce em Franca, interior de São Paulo, quando apenas 26 anos se passara da data da abolição da escravidão ainda recente, um pensador que não se pode deixar de citar quando estudamos o teatro brasileiro, pois ele concebeu um dos “maiores laboratórios de diversidade e autoafirmação nas artes cênicas do Brasil”: Abdias do Nascimento: dramaturgo, ator, acadêmico, político, artista plástico, poeta, ativista, escritor, erudito são múltiplos seus títulos pois em seus 87 anos desdobrou-se em diversas missões.

Foi ao assistir um espetáculo com o uso de “black face”, prática em que uma pessoa branca pinta o rosto de cor escura tirando a possibilidade de negros ocuparem os palcos além de ridicularizarem suas características físicas, que Abdias decidiu criar um grupo teatral para o protagonismo do negro, onde ele saísse da condição adjetiva e folclórica para a de sujeito e herói das histórias que representasse. No intuito de restituir a negritude uma defesa da verdade cultural do Brasil e uma contribuição ao humanismo que respeita as diversas culturas com suas respectivas essencialidades.

Engajado a estes propósitos, Abdias fundou em 1944, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro, ou TEN, que se propunha a resgatar, no Brasil, os valores da pessoa humana e da cultura negro-africana, negados por uma sociedade dominante que, desde os tempos da colônia, carregava e defendia a bagagem mental de sua formação europeia, imbuída de conceitos pseudocientíficos sobre a inferioridade da raça negra. O TEN pretendia trabalhar pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, cultura e arte.

Ao optar pelo uso do termo “negro” Abdias queria ao mesmo tempo ressignificar positivamente o adjetivo,  valorizar o tom da pele e apontar uma ferida aberta na sociedade brasileira, que era , e ainda é, o mito da democracia racial, a ideia de que não existe racismo em nosso país só serve para abafar o preconceito vigente e manter as condições das populações que trazem em seu passado as máculas da escravidão em condições de subserviência e prejuízo econômico.

Dessa forma Abdias do Nascimento, utilizou o TEN para trabalhar em duas frentes: primeiro a promoção da denúncia dos equívocos e da alienação dos chamados estudos afro-brasileiros para a sociedade como um todo, e segundo, fazer com que o próprio negro tomasse consciência da situação objetiva em que se achava inserido. Abdias alfabetizava o elenco, preparava os atores e incentivava a conscientização deles como cidadãos, para se libertarem de quaisquer tipos de escravidão seja espiritual, cultural, socioeconômica ou política em que foi mantido antes e depois de 1888.

O TEN visava a estabelecer o teatro como espelho e resumo da experiência existencial humana, tinha fórum de ideias, debates, propostas, e partiam para a  ação visando à transformação das estruturas de dominação, opressão e exploração raciais implícitas na sociedade brasileira dominante, nos campos de sua cultura, economia, educação, política, meios de comunicação, justiça, administração pública, empresas particulares, vida social, e assim por diante. Um teatro que ajudasse a construir um Brasil melhor, efetivamente justo e democrático, onde todas as raças e culturas fossem respeitadas em suas diferenças, mas iguais em direitos e oportunidades.

Grandes nomes do Teatro e cinema brasileiro como Ruth de Souza, Haroldo Costa e Milton Gonçalves deram seus primeiros passos nos palcos do TEN. Abdias do Nascimento é sem sombra de dúvidas um dos pilares da cultura brasileira deixando seu legado tanto nas artes cênicas quanto nas visuais, pois não falei aqui sobre o Museu de Arte Negra também idealizado por Abdias em que se buscava a produção de obras plásticas de artistas afrodescendentes.

Para saber mais:

GUINSBURG, J; FARIA, João Roberto; LIMA, Mariangela Alves de. Dicionário
do teatro brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 2006.,

SOBRAL, Cristiane. Teatros Negros: Estéticas na Cena Teatral Brasileira São Paulo Edições Me Parió Revolução, 2018

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