O Teatro Grego – A origem

Texto de Ana Carolina C. e Tatiana Trindade

“De mortal vesti o semblante e minha forma divina mudei em natureza humana ” Trecho de As Bacantes – Eurípedes

Pra começar a compreender o Teatro Grego é importante antes, falar sobre Mitologia. Pois, assim como vivemos a dinâmica religião/ciência, os gregos lá no século V a. C viviam o contraponto mitologia/filosofia. E para entendermos o surgimento do teatro pela ótica ocidental, precisamos antes conhecer o mito de Dioníso.

Para os gregos antigos, os mitos não eram histórias de entretenimento e nem curiosidades, muito menos personagens de história em quadrinhos; na verdade eles diziam algo a respeito do mundo e da humanidade. Pois, é da natureza humana o questionamento sobre sua origem, existência e a busca de compreensão e entendimento sobre o que é o “ser” no mundo.

À vista disso, um dos caminhos para responder essas questões foi a criação de mitos. Seus deuses constituíam o conhecimento de vários significados simbólicos, dos quais muitos se mostram atuais. Assim sendo, não podemos confundir os mitos apenas como uma ingenuidade dos homens que não conheciam a ciência, mas sim, como uma forma de pensamento eficaz, que organiza a relação do ser humano tanto com os fenômenos que o rodeia quanto com suas reações ao mundo que habita.

Dioniso é o deus do vinho, das festividades, da fertilidade, da loucura e do teatro. Fruto de uma relação entre um deus (Zeus) e uma mortal (Sêmele), desde pequeno, foi perseguido por Hera, a mulher de Zeus, seu infortúnio começa quando, Sêmele persuadida por Hera disfarçada de ama, exige como prova de amor que Zeus se apresente em sua forma original, porém, nenhum mortal teria condições de presenciar sua luz divina. Sendo assim, não convencida do perigo, Zeus cede ao pedido de sua amante que na hora é fulminada. O Deus dos trovões, então, resgata o bebê do ventre dela e o termina de gerá-lo em sua coxa. Quando o bebê nasce, Zeus, temendo a ira de Hera, entrega-o às ninfas e sátiros do campo, onde haviam vastas plantações de uvas.

Dentro da mitologia, principalmente nos escritos de Homero, encontraremos várias peripécias e fatos vividos por este deus que dizia não às normas pré-estabelecidas, às leis, ao estado controlador e regulador das coisas, o oposto de tudo que representava seu irmão o Deus Apolo. Mas como o culto a Dioniso se transformou num ritual que daria origem ao Teatro?

Pra elucidar essa história vamos fazer um exercício de imaginação. Pense que em um dia muito quente, o deus andando pelos campos observa que os bodes comem uvas amassadas do chão, e aparentemente sem motivo, os animais começam a saltitar euforicamente. Logo, Dioniso faz a associação dos animais agirem dessa forma pelo fato de terem comido as uvas pisadas, resolve então pisar um cacho e extrair o caldo, ao beber este caldo percebe um leve formigamento em seus lábios, uma tontura divertida, vontade de cantar, dançar, tocar outros corpos, ele sente pela primeira vez a embriaguez do vinho.

Sigamos no exercício imaginativo, Dioniso resolve compartilhar sua descoberta, primeiro com as ninfas e sátiros de sua convivência, depois com todos os mortais, temos assim, festividades em honra ao deus criador do vinho. Poucos relatos que restaram, nos contam que nestas festas, buscava-se um estado de inconsciência, um momento de estar fora de si, além dos cantos e danças em honra ao deus, havia banquetes e orgias, buscava-se viver e sentir o prazer de ser Dioniso, os participantes estavam prontos para o entusiamo. Para quem desconhece o significado desta palavra ela vem do grego e se constitui da junção in +theos, literalmente em Deus, que em sua origem significava inspiração ou possessão por uma entidade divina ou pela presença do Deus.

Ou seja, se tratava de um ritual religioso, que as pessoas buscavam deixar de ser quem eram, logo, o uso de máscaras e vestimentas disfarces, como de animais eram essenciais para esta transformação. Entretanto, o ápice do ritual era a hora da declamação do Ditirambo, apelido dado ao deus que nasceu duas vezes (do ventre de sua mãe e da coxa de seu pai). O Ditirambo era um canto lírico que exaltava as façanhas do deus, e aos poucos esse canto foi adquirindo aspectos dramáticos, o coro que antes era único, foi dividido em dois, uma parte perguntava, outra respondia, depois surgiu o corifeu, uma espécie de mestre de cerimônias que coordenava o canto dos dois semicoros.

Voltando ao percurso do nosso imaginário, vislumbrem agora o seguinte acontecimento: um homem que fazia parte de um dos coros, sai de seu lugar e coloca sobre seu rosto um cacho ostentoso de uvas e grita: “Eis aqui, o deus que vós tanto chamais, sou Dioniso! ” Temos pela primeira vez a representação personificada deste Deus.

Este homem nos é apresentado pelo filosófo Aristóteles, em seu livro A poética, seu nome era Tépsis ou Thespis, e é convencionado que ele é o primeiro ator do ocidente. A palavra ator, tem origem no termo grego hipokrités ( aquele que finge) que, usando máscaras e vestimentas, representava personagens mitológicas, estes eram sempre homens e eles representavam vários papeis na mesma peça, inclusive as personagens femininas.

Com cada vez mais adeptos ao culto do novo deus, não é de se espantar que as autoridades políticas notassem o grande interesse do povo nas festividades em honra a Dioniso. Em Atenas, o tirano Pisístrato aproveita a popularidade dessas homenagens e institui as
Grandes Dionísias, procissões que vão se estabelecer como primeiro lugar do espetáculo teatral de forma estruturada. Fim, chegamos à resposta de nossa pergunta.

É interessante notar que Dioniso enquanto simbologia representa a criatividade que necessita movimentar-se em sentido oposto ao corrente, ou pelo menos, num novo enfoque ao conhecido. Dessa maneira, se para se transformar, o homem precisou desprender-se do que nele é instintivo, sem o que não poderia começar a refletir racionalmente, isto é, tornar-se humano, pode-se dizer que o mito surge como uma forma de encararmos os temores associados ao conhecimento, pois conhecer é um processo doloroso porque inclui a percepção de limites, o reconhecimento de nossos vícios e a inexorável certeza da morte.

Compreender o mito de origem do teatro nos faz perceber que não precisamos ser conhecedores de todos os imperativos da arte da representação, pois ela é intrínseca à humanidade, possibilita a explosão da expressão humana, sem filtros ou coordenadas, corre pelas nossas veias, nos “embriaga” e nos encanta porque nela temos acesso a um pedaço de nós mesmos.


Logo haverá um vídeo no canal do Youtube sobre o Teatro Grego, até lá!

Para saber mais:

Aristóteles, Arte Poética, Editora Martin Claret, São Paulo – SP, 2005.

Hubert, Marie -Claude, As grande teoria do teatro , São Paulo, Editora WMF Martins Fontes, 2013

Migliavacca, Eva Maria, Jogo de Opostos: Uma aproximação à realidade mental através do Mito de Dioniso – Psicol. USP vol.10 n.1 São Paulo, 1999 – https://doi.org/10.1590/S0103-65641999000100015

Vasconcelos, Luiz Paulo , Dicionário de Teatro, 6ª ed, Porto Alegre, Editora LPM ,2009

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