Os professores já estão fazendo demais!

Texto de Ana Carolina C. revisão e divulgação de Tatiana Trindade

Crédito imagem: Getty Images

O dia dos professores foi comemorado semana passada e logo hoje me deparei com a nova definição de professora no dicionário do google ( procurem lá). O que me arrancou risadas sinistras num misto de desapontamento e descrença. Quem me conhece sabe que sou uma entusiasta das novas metodologias de ensino, da pedagogia de projetos e da sistematização das experiências. Confio e concordo com o pensamento de Paulo Freire quando defende que no processo de ensino aprendizagem, todos, alunos e educadores trocamos de papéis inúmeras vezes, criando assim, possibilidades para uma boniteza do olhar e do crescimento. Mas hoje quero falar de uma realidade que está cada vez mais distante dessa boniteza. Participando de uma reunião promovida pela Secretaria da Educação, percebi algo que sempre esteve na cara mas que por algum motivo nunca vi com tanta clareza como vejo agora, e este algo é que: OS PROFESSORES JÁ ESTÃO FAZENDO DEMAIS!

Muitos que trabalham na máquina administrativa e burocrática ficam pensando em formas de motivar o professor e decidem que uma destas formas é apontar nossos erros. Certa vez, em uma apresentação um colega (pois antes de estar na secretaria ele é professor) resolve palestrar sobre avaliação continuada, afirma que o professor além de dar o conteúdo precisa acompanhar seus alunos de forma que se deve avaliá-los ,segundo suas capacidades,individualmente, e eu falo com sinceridade, digníssimos leitores, que concordo, que considero a forma mais justa, mas isto não me impede de te perguntar: Alguém aqui, acredita realmente que é possível acompanhar e avaliar individualmente por semestre aproximadamente 300 alunos? Porque a nossa realidade é que damos aulas de 6 a 7 turmas com 43 a 48 alunos cada.

Conheço uma escola que por uma fatalidade está sem coordenador pedagógico desde a volta do recesso, e são os professores que continuaram levando em frente, sozinhos, os projetos decididos no início do ano e que constam no Projeto Político Pedagógico da escola. (Sim, ainda o chamo assim porque tirar a palavra político só mostra o marasmo de ignorância em que estamos afundando), buscando dessa forma valorizar os alunos individualmente em seus processos de construção de saberes, mas só quem está no chão da escola sabe o que é levar a cabo um projeto que envolve todos desse local, sem ter apoio logístico.

Falando em logística, na parte administrativa da escola a qual trabalho, desde o início do ano 03 pessoas se aposentaram ( merecidamente) mas até hoje não veio ninguém preencher essas vagas, resultado: cópias são pagas pelo professor com seu próprio dinheiro, mutirão na hora da coordenação para formatar, imprimir e grampear provas, provas estas que depois ainda corrigiremos e lançaremos notas em nossos diários ( pra isso que precisamos da coordenação fora as aulas horas) . Outro ponto abordada na dita apresentação foi o discurso em que se deduz que o mau rendimento do aluno é resultado da prática enfadonha do professor, e se não era a hora de mudarmos nossas táticas. Eu até topo mudar minhas táticas mas desconfio muito que se meus estudantes tivessem uma refeição decente em vez de uma fruta e biscoito, se as salas de aulas não fossem tão lotadas e quentes ( imaginem o período de seca em Brasília, numa sala pequena,com teto baixo de zinco e forro plástico) , e que se  eles não tivessem tantas aulas perdidas em virtude da quantidade de professores adoecidos o rendimento melhoraria bastante,  e isso, prezados, por mais que tentemos está fora da nossa alçada.

Sobre as nossas capacidades docentes ainda recaem sobre nós uma extrema carga emocional, setembro não está tão longe, neste mês em que voltamos nossa atenção para os casos de suicídios e depressão, você que está fora da escola tem ideia de quanto de nossos alunos se auto mutilam, sofrem e que em suas casas em vez de apoio, encontram julgamentos de seus pais? Achando que é falta de fé ou frescura? Mais uma vez a falta de um psicólogo na escola recai sobre quem? Sobre nós professores, que em meio a tantas demandas acabam adoecendo também. 

Sabemos que existe em  curso um plano de desmonte da educação principalmente da pública, nós professores estamos dando o nosso melhor, não deixamos de estudar para dar aula sobre o conteúdo e também não deixamos de dar atenção e apoio emocional dentro dos nossos limites, mas onde estão os outros setores da sociedade para nos ajudar? Pois não basta depositar toda a esperança de uma sociedade sobre nós, repito mesmo: os professores já estão fazendo demais. 

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