Dadaísmo ou Movimento Dadá

Texto de Ana Carolina C. e Tatiana Trindade


Primeira Feira Internacional Dadá, 1920. Foto: Reprodução.

Em 1916, num período de armistício da 1ª Guerra Mundial, nasce em Zurique, na Suíça, o Dadaísmo. O movimento foi concebido por um grupo de artistas, em sua maioria emigrados e foragidos de guerra. Foi num pequeno bar, o Cabaret Voltaire de Hugo Ball e Emmy Hennings, em que eram realizados espetáculos de variedades, que vários artistas lançaram uma nova forma de pensar a arte.

Em sua origem, os dadaístas eram tomados por um sentimento de ódio devido aos traumas vivenciados na Primeira Guerra Mundial. A busca da nação de manter a qualquer custo seu establishment (a ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui uma sociedade ou um Estado) eram rechaçadas por estes artistas, bem como, a ingênua confiança do povo na razão, lógica, regras e regulamentos.

A alternativa que o dadaísmo encontrou para responder toda a hipocrisia que justificaria uma guerra foi a conduta irracional, ilógica e desordenada. Para eles, como se falaria de arte, do sublime, do êxtase espiritual, enquanto se via um mundo em total destruição ?

A origem do nome Dadaísmo é incerta, entretanto todas hipóteses levantadas remetem a ilogicidade, um retorno a primeira infância e um espaço para o acaso.

O que sabemos sobre este movimento deve-se aos relatos dos próprios artistas envolvidos, dentre eles, Tristan Tzara (1896-1963), poeta romeno que é reconhecido como o idealizador do Dadá. Tentar definir este movimento é uma tarefa hercúlea, como justificar uma escola ou estética que em sua ação o que mais buscava era não ser explicado? Ou mais, como explicar uma estética artística que se negava como arte?

A antiarte
Uma das mais importantes características do Movimento Dadá é a alteração do paradigma da valorização do belo. Lógico que esta estética não foi a única responsável pela mudança de paradigmas da arte na virada do século XIX para o século XX. Se antes da Primeira Guerra Mundial ainda havia uma necessidade de prazer ante o belo, nas Vanguardas e especialmente no Dadá, não há. Elementos clássicos da tradição artística ocidental, são alvos de ridicularização. Muitos dos integrantes do movimento frequentaram escolas de arte e a partir desses conhecimentos, tornou-se possível para cada indivíduo integrante do Dadaísmo anarquizar a tradição, contestar as regras e normas balizadoras da arte aceita como tal, chegando em um tipo de antiarte.

O Cabaret Voltaire

Como dito anteriormente, tudo começou em um pequeno bar, cujo os donos Hugo Ball e Emmy Hennings convidaram outros artistas para apresentarem números musicais e leituras em encontros diários, com o objetivo de criar um centro de entretenimento artístico. Noticiaram no jornal de 2 de fevereiro de 1916, a seguinte convocação : “Cabaré Voltaire. Sob este nome estabeleceu-se um grupo de jovens artistas e literatos cujo objetivo consiste em criar um centro para o divertimento artístico. De acordo com o princípio estabelecido pelo cabaré, nas reuniões diárias deverão realizar-se apresentações musicais e recitais dos artistas convidados. O cabaré exorta todos os jovens artistas de Zurique para que compareçam com sugestões e contribuições, sem se preocupar com esta ou aquela orientação artística.”

Dentre os artistas que prontamente atenderam ao chamado encontramos Tristan Tzara (1896-1963), Marcel Janco (1895 – 1984) e Richard Huelsenbeck (1892-1974).

Em O Dadaísmo e o Teatro de 1922, Tzara reivindicou para o teatro o direito de ser teatral, as maravilhas que essa linguagem proporciona é justamente a desobrigação de imitar a vida. O teatro poderia “preservar sua autonomia artística, vale dizer, viver por seu próprios meios cênicos”. Os atores poderiam libertar-se da “gaiola” do teatro do palco italiano, que separa os atores do público e atuarem bem à vista dos espectadores, tornando-os parte do mundo teatral.

Imagine a seguinte cena: Luz a pino em cima do ator, ele começa a declamar um belo poema, enquanto ele declama, ouve-se alguém mexendo na bolsa procurando insistentemente algo e com isso barulho de chaves e sacos plásticos interferem no meio da declamação, para completar entra em cena outro ator declamando como poemas, notícias de jornais com o som de um violino sendo afinado- pausa- uns 20 minutos de silêncio, até que aparece um novo ator gritando, vociferando, mandando o público sair, xingando a todos, chamando-os de inúteis, porcos e imbecis.

Conseguiu imaginar? Se sim, parabéns! Você acabou de visualizar um espetáculo do movimento dadaísta. E por mais bizarro que isso possa parecer, existia um público desejoso de fazer parte desses momentos. Se atente para o fato de que o Cabaret Voltaire era um ambiente que o público estava disposto a levar a sério, pois se tratava de um espaço cultural onde era permitido que fossem ditas e feitas coisas que em outro contexto seriam consideradas inaceitáveis ou não seriam ouvidas.

Embora num primeiro momento possamos julgar as encenações dadaístas, estúpidas e infantis, mas na verdade traziam na sua antiarte um embasamento estético proposital e previamente pensado. Aparentemente os seus espetáculos eram percebidos como confusos, irracionais e sem sentido, no entanto, o que torna racional a necessidade de ordem e dominação estabelecida no nosso mundo?

Em síntese:

  • O dadaísmo tem caráter anárquico, difunde e amplia os limites das técnicas de colagem e montagem, da escrita, a abolição da lógica, a escrita aleatória e as ações cênicas de improviso.
  • Se há na vanguarda um rasgo, uma dissolução de paradigmas, ele está justamente nesse movimento, que criticava e atacava o próprio meio artístico em que estavam inseridos.
  • “Foi um movimento anarquico que levou ao Surrealismo, influenciou a pop art, estimulou a geração beat, inspirou o punk e forneceu a base para a arte conceitual”.

Para saber mais:

Wolff, Manoela Wilhelms, Brönstrup, Camila Bauer. Questões para um Teatro Dadaísta.

Gompertz, Will Isso é arte?150 anos de arte moderna do impressionismo até hoje, Rio de Janeiro : Zahar, 2013.

Goldberg, RoseLee, A arte da performance: do futurismo ao presente. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

Aslan, Odette. O ator no século XX: evolução da técnica, problema da ética. São Paulo: Perspectiva 2005.

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