Shakespeare na atualidade.Será necessário?

Em 2018, durante um projeto escolar, foi montada uma peça com foco nas personagens femininas de algumas obras de Shakespeare. O paralelo entre estas personagens do século XVI e XVII e as mulheres de hoje, nos levou a refletir sobre até que ponto a dramaturgia Shakespeariana faz sentido em ser tratada nas escolas atualmente.

Sobre Shakespeare

Willian Shakespeare, é um nome conhecido até por quem não curte muito teatro, certo é, que o dramaturgo inglês, autor de clássicos como Romeu e Julieta; Sonho de uma noite de Verão, Otelo, Rei Lear, Hamlet entre outros é um dos gênios indiscutíveis do teatro ocidental. Suas 37 peças foram escritas em seus vinte e poucos anos de carreira. O autor em questão escreveu diferentes gêneros- comédia, tragédia e drama histórico – Percebemos em sua dramaturgia um refinamento com o passar dos anos, por exemplo, A comédia dos erros, é extremamente divertida, mas fica longe da qualidade de Noite de Reis ou Muito barulho por nada.

Com o tempo as suas tragédias foram evoluindo e trouxeram um outro patamar de investigação sobre o comportamento humano, e isso se dá, concomitantemente, com a sua plena maturidade individual e artística. O mais incrível, é que, várias das suas histórias não eram enredos originais, justamente porque procurava temas já conhecidos do gosto popular inglês.

O feminino em questão

Com a intenção de abordar com um novo olhar os personagens shakespearianos, numa liberdade criadora artística, buscamos dar voz as personagens que ficaram à sombra dos protagonistas na dramaturgia de Otelo, Hamlet e Romeu e Julieta. Destacando as personagens femininas centrais das obras, numa ação oposta ao autor que evidenciava os personagens masculinos e suas crises existenciais.

Nos textos shakespearianos algumas personagens femininas são retratadas como marcantes e fortes, como é o caso da Julieta e da Desdêmona que resolveram questionar a autoridade paterna e se recusaram seguir os códigos da estrutura patriarcal. Porém, todas as personagens femininas apresentam como traço predominante a bondade, ternura e uma certa obediência, sendo essas características, no senso comum, consideradas típicas das mulheres.

Não usaremos este espaço para uma análise sobre a presença do viés machista ou feminista na obra do autor. Mas sim, para buscar a compreensão de como a ação ou a falta de ação dessas personagens interferem na obra e como sua narrativa chega até nós. Levando em consideração a época em que os textos foram escritos, temos as personagens que não se posicionavam e também as que não aceitavam os seus destinos. Em algumas peças teatrais elas se rebelaram contra ideias e valores obsoletos, e se posicionaram diante dos seus pensamentos e agiram de acordo com a sua própria consciência individual.

Desdêmona

Desdêmona é uma figura pura, tão ingênua que não se permite desconfiar dos outros e enxergar o mal. Inocente das acusações de Otelo, sofre, porém, não se defende. Interessante notar que ao mesmo tempo em que Desdêmona tem força e propriedade suficiente para enfrentar seu pai, ela não tem a mesma postura perante Otelo, seu marido.

Ela, em todo o momento, mesmo não entendendo a causa dos ciúmes de seu amado, acredita que seu marido apaixonado seria incapaz de machucá-la. Todos os indícios de violência indicados pela trama, não são suficientes para que Desdêmona assuma o lado sombrio de Otelo, contaminado pela insegurança e ciúmes. Dentro de sua ingenuidade, ela acreditava que o coração bondoso dele. As pequenas violências as quais ela foi submetida, para ela justifica-se ou pelo temperamento de Otelo, ou por seu desgate no trabalho, tanto é assim, que  mesmo  quando seu marido a sufoca ela ainda encontra forças para defendê-lo.

Ofélia

Ao contrário de Desdêmona, Ofélia é a personagem que mais se deixa ser  influenciada pelos outros personagens da trama, se mantém como a submissa e obediente, sendo uma sombra dos personagens masculinos do enredo, e muitas vezes o instrumento para que eles alcancem seus objetivos. Sua posição de aceitar se calar, de suprimir seus sentimentos e não agir, acaba a tornando importante. Pois, é através dela que se enxerga a maldade masculina que é ampliada quando se deseja alcançar seus objetivos, usando qualquer pessoa como uma peça nos seus jogos. Nessa construção, a loucura tem sua razão e a sua morte tem um peso de enorme valor. É nessa personagem que se desvenda a problemática da submissão feminina sendo guiada pelos outros, Ofélia enlouquece, por transportar  sentimentos e pensamentos aprisionados, oprimidos, ignorados. A sua consciência é despertada e quando ela se dá conta do que se tornou a sua vida, no que a tornaram, a loucura se torna a única saída possível de uma  vida que nunca a fez feliz.

Julieta

Por fim, Julieta, é apresentada como uma jovem que não se submeteu às vontades alheias e decidiu pela a realização de seus desejos, mesmo diante das resistências que se fizeram presente, como a sociedade e a sua família. De uma filha obediente e com um casamento arranjado, ela passa a desacatar as ordens familiares, passando a guiar suas escolhas pelo filtro de sua paixão pelo
Romeu. Decidida, ela casa-se as escondidas com seu amor, desfruta da noite de núpcias, mente para seus pais, rompe com a ama a sua relação afetiva e no apogeu da sua resistência as ordens sociais e ao domínio familiar, ela muda o rumo da sua vida, por sua liberdade.

Desdêmona, Ofélia e Julieta, estão inseridas numa teia de relações formada por um enredo de ações e possibilidades. As opções que se alternavam ora numa atitude passiva ora numa prática ativa evidenciam um complexo jogo de relações políticas e sociais. É no recolhimento de Ofélia que ela evita participar desse jogo do qual já fazia parte por ser usada. Essa atitude se choca com a força de resistir e não obedecer às regras familiares e sociais que Desdêmona se posiciona contrário a seu pai e casa-se com Otelo, igual a Julieta que foge por não querer a vida que seus pais planejaram para ela.

Ambas, são motivadas pela crença no amor que sentiam. São três personagens que demonstram a complexidade feminina, em se metamorfosear em aspectos racionais e passionais, agindo e resistindo, beirando a loucura e a insanidade como forma de se fazer ser percebida através da sua presença e dos acontecimentos de suas vidas, nunca os negando, mas entregando-se a eles com uma intensidade que as levariam à morte.

De forma consciente ou inconsciente, as três personagens, carregam um misto de resistência e obediência às convenções, representando as transições e tensões entre os poderes que permeiam suas vidas. A magnitude delas residem na ideia de que não há lugar ou período histórico que consiga aprisionar a humanidade sem que se tenha o mínimo de resistência. Mesmo com toda a dificuldade, conseguiram driblar as convenções sociais, dissimularam a obediência, e cumpriram seus destinos, sem hesitar.

Da sala de aula para uma odisseia

No Centro Educacional 06 da Ceilândia – CED 06 existe um projeto chamado Odisseia, nele, os estudantes são incentivados a escolher uma temática de sua preferência, pesquisar e apresentar seus resultados de alguma forma: palestra, dança, teatro dentre outras maneiras de expor os conteúdos.

Em 2018, a Tati trabalhando nessa escola, orientou um grupo que aceitou tratar da temática do feminicídio numa construção conjunta e bilateral de aprendizagem. Como professora de teatro, sugeriu a criação de 3 cenas soltas com ênfase nas personagens femininas shakespearianas. Assim nasceu o espetáculo Borboletas na barriga através dos tempos. Peça que já ultrapassou os muros da escola e está deixando marcas em outras instituições de ensino.

A dramaturgia foi estruturada muito a partir da intuição, cada personagem escolhida representava um tipo de violência que as mulheres são passíveis de sofrer, construiu-se assim as metáforas: Desdêmona = Violência Fisíca; Ofélia=Violência Psicológica e Julieta = Violência social. No início a narrativa se concentravam apenas nas falas dessas personagens, entretanto deslumbrou-se a necessidade de criar um elo entre as cenas, surgindo assim os menestréis, personagens responsáveis por guiar o público e a narrativa, criando uma dinâmica de ritmo, coesão e tempo. Suas intervenções além de amarrar as cenas, funcionaram como um escape, dando um alívio cômico a um tema tão espinhoso.  

Ainda com o objetivo de ampliar o sentido lúdico da narrativa foi incluso no espetáculo uma banda que trazia a trilha sonora ao vivo. Optar pela execução da trilha ao vivo trouxe para o espetáculo uma atmosfera de sensibilização, a música envolve a cena colocando os personagens e a plateia numa mesma sintonia.

Outro fator extremamente importante para a construção de significados na dramaturgia, foi a concepção do desenho da cena, nada é gratuito no cenário, Desdêmona aparece no tecido, que representa Otelo e sua morte por asfixia, Ofélia, que suicida se afogando, sai de uma caixa d’água, Julieta, tão jovem, espera sua cena em um balanço. Borboletas e bolas de sabão são espalhados pelo espaço cênico, assim como as flores no chão, tudo para a criação de um universo feminino de transmutação.

Os alunos que fizeram a peça, estão prontos para voar.

O desenvolvimento da peça foi tão satisfatório que ultrapassou o aspecto de um trabalho avaliativo, para um projeto pessoal, tanto que  06 ex-alunos se juntaram com mais 06 alunos do CEF 25 de Ceilândia (atual escola da professora Tatiana) para uma nova montagem. E estão prontos para circularem por mais escolas.

Aqui no Caos & Revolta, sempre nos emocionamos muito com o alcance deste espetáculo, nada mais gratificante para um professor quando conseguimos perceber em tão pouco tempo um amadurecimento dos nossos estudantes sobre entender a Arte como uma linguagem e um tipo de lente que permite outro olhar sobre o mundo.

 

Sou a pessoa mais feliz do mundo quando estou ajudando no espetáculo para sair tudo perfeito…gosto do que faço me sinto bem, é um trabalho que precisa ser mostrado para o povo, muito emocionante.

Isso não se tornou um simples trabalho e sim uma parte de mim, uma parte que podemos mesmo cansados ver que aquilo foi esforço nosso, e que naquilo estamos tocando pessoas e assim ensinando a elas, essa peça, simplesmente é maravilhosa e que vale a pena lutar por ela e continuar apresentando. Me sinto realizada toda vez que concluímos uma apresentação.

Uma peça não é simplesmente uma peça, é uma forma de arte e de protesto contra os problemas que as pessoas sofrem. Mesmo não valendo nota e me deixando cansado, todas as vezes que apresentamos, se tocar pelo menos uma pessoa, pra mim todo esforço valeu a pena. Essa peça me mudou, me deu uma nova visão do mundo e das pessoas.

Depoimentos dos alunos do CED 06 e CEF 25 de Ceilândia, Geovanne, Ingrid, Israel e Micaelle.

Atualmente o espetáculo está em circulação pelas escolas de Ceilândia e Taguatinga, mas queremos mais. Os interessados em recebê-lo basta nos procurar pelo e-mail caoserevolta1@gmail.com

Observação: Os textos sobre Shakespeare e suas personagens foram consultados nos seguintes livros:

  • Heliodora, Barbara O teatro explicado aos meus filhos, Rio de Janeiro: Agir, 2008
  • Heliodora, Barbara: escritos sobre o teatro/ Claudia Braga, organização – São Paulo: Perspectiva, 2007
  • Bradley, A. C. A tragédia shakesperiana: Hamlet, Otelo, Rei Lear, Macbeth, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.
  • Feist, Hildegard Pequena viagem pelo mundo do teatro, São Paulo: Moderna 2005

 

 

3 comentários em “Shakespeare na atualidade.Será necessário?”

  1. Se foi mesmo Shakespeare o autor de todas as 37 peças atribuídas à sua pena — há quem se pergunte até hoje se, de fato, ele existiu — ou se seria bissexual, como apontariam muitos de seus sonetos e peças, tudo é motivo para falar dele. Especialistas do mundo inteiro não se cansam de buscar novos ângulos sobre o autor à luz da epistemologia, da representação e da semiótica. Muitos se perguntam como o criador de uma obra extraordinária pode ter tido uma vida aparentemente tão comum.

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    1. Isso mesmo! Shakespeare foi uma personalidade que desperta indagações. E seus personagens então, que seguimos criando vozes? É aquele ditado, fale bem, fale mal, diga que eu não existo, mas fale de mim!

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