Movimento Expressionista

No Teatro, Artes Visuais e Outras Linguagens

Ana Carolina C e Tatiana Trindade

O início do século XX, devido a industrialização que colaborou para o crescimento das riquezas no mundo ocidental, resultou num exacerbado otimismo promovendo uma reviravolta cultural.  As novas ideias científicas traziam a esperança de que fosse criada uma sociedade melhor e mais justa. Entretanto, o novo século acabou se transformando numa era turbulenta à medida que as esperanças para o futuro se esfacelavam diante da carnificina da Primeira Guerra Mundial.

Nesse mundo com profundas mudanças, abalado por convulsões sociais, posto à prova pela guerra, o expressionismo não foi, necessariamente, uma escola, um movimento literário ou artístico, mas o comportamento de uma geração.

O que foi o Expressionismo?

Antes de iniciarmos é preciso entender que o expressionismo se manifestou de forma diferenciada nas linguagens artísticas, seu conceito é amplo, embora resguarde suas principais características. Inicialmente, o termo expressionismo foi utilizado na França para se diferenciar das produções impressionistas. Entretanto, em 1906, surgiu como movimento artístico na Alemanha para representar uma estética genuinamente germânica, influenciada pelas ideias de Friedrich Nietzsche (1844-1900). Durante e após a primeira guerra mundial, o Expressionismo adquiriu uma conotação revolucionária contra o materialismo e com forte influência emocional.

Características:

De maneira geral o Expressionismo exalta a expressão de sentimentos com viés pessimista, como angústia, desespero, agonia, tristeza, dor e solidão. O artista vai utilizar o caráter subjetivo, expondo suas percepções internas ao se deparar com o mundo externo.

Nas artes cênicas

Floresceu principalmente na Alemanha, quando os jovens começaram a sentir que estavam sendo sacrificados por ideias que não eram as suas.  Algumas peças dramáticas foram escritas nas próprias trincheiras, e a maior parte contestava radicalmente o governo, a economia e a sociedade que levara à guerra a juventude alemã.

O expressionismo alemão – o teatro de vanguarda mais significativo da época – partilhava com o futurismo, o surrealismo e o dadaísmo uma rejeição tanto do naturalismo, com sua fidelidade à realidade superficial e seu interesse nas questões sociais, quanto do simbolismo, com sua adoração da beleza e das visões de paraísos etéreos.

Os dramaturgos expressionistas estão mais interessados em exprimir suas próprias ideias do que em fornecer uma imagem fiel da realidade. Eles utilizam os símbolos para exprimir a violência crua e a emoção intensa. É frequente o uso do símbolo mais abstrato em detrimento da personagem individualizada e forte, na verdade, essa forma corresponde geralmente a uma distorção da realidade para que possam aparecer os indícios de certos estados psicológicos. É rara a preocupação com causa e efeito.

Na produção de uma peça expressionista, o cenário deve ser reduzido, e todo elemento usado deve atuar para sugerir alguma coisa ao espectador. Existe uma atmosfera de sonho e mesmo de pesadelo que são obtidas através de uma iluminação difusa, e pausas que geram um desconforto na plateia. O expressionismo, portanto, é uma técnica que permite ao dramaturgo enfatizar os conflitos interiores do homem e sua luta contra forças que não aparecem de maneira óbvia no mundo cotidiano.

Em síntese:

  • A fragmentação da história e estrutura de peça expressam a visão do protagonista, em geral do autor
  • Existe uma simplificação de cenários sugerindo imageticamente o tema da peça.
  • Os personagens perdem sua individualidade se fundindo na maior parte das vezes num estereótipo grotesco.
  • O estilo de representar é exagerado (overacting) assemelhando aos movimentos mecânicos de um boneco.

No cinema o Expressionismo Alemão dá uma vigorosa contribuição ao desenvolvimento da linguagem cinematográfica, O gabinete do Dr. Caligari (1919), dirigido por Fritz Lang, considerado o marco do movimento que faria com que o cinema passasse a ser visto como arte.  Penumbra, cenários góticos, espelhos que podem roubar a imagem de quem se reflete neles, sombras que podem abandonar seus donos, perspectivas distorcidas que vão oprimir os personagens, são elementos presentes na filmografia expressionista.

Nas artes visuais

Como dito anteriormente, o termo Expressionismo surgiu primeiramente para se diferenciar do movimento Impressionismo. Van Gogh foi um dos primeiros artistas que se dirigiu a um movimento contrário, enquanto os impressionistas haviam procurado expor a verdade pintando o que viam com rigorosa objetividade, ele queria ir além; expor  a condição humana.  Assim passou a pintar não apenas o que via, mas o modo como se sentia em relação ao que via. Seus estudos e aplicações técnicas vão influenciar fortemente o pintor norueguês Edvard Munch, autor de O grito.

Uma pequena análise da obra O grito de Edvard Munch

Embora Van Gogh tenha morrido em 1890 praticamente desconhecido e sem reconhecimento, sua influência sobre a arte moderna foi quase imediata. Menos de três anos depois o artista norueguês Edvard Munch (1863-1944) pintou o famoso O grito (1893). Munch replicou o método de Van Gogh de entortar a imagem para transmitir suas emoções íntimas profundas. O resultado é uma tela que é o maior símbolo da pintura expressionista: o horror distorcido na face da figura, com sua mistura de terror e súplica, não deixa nenhuma dúvida no espectador sobre a visão de mundo dominada pela ansiedade do artista.

Ao deter sobre a obra surge a pergunta: Porque ele gritou? Ele está gritando numa ponte. A sua forma é totalmente deformada, ondulante, com as mãos sobre a face enquanto a ponte na qual ele se encontra não apresenta distorção, e ao fundo dela percebemos duas pessoas aparentemente sem nenhuma deformidade, estão retos caminhando normalmente, contrapondo-se à natureza representada, o céu apocalíptico vermelho, a praia com seu mar turvo, estão distorcidos, essa natureza nada mais é do que o seu mundo interior. Ele grita porque percebe o quão disformado está o mundo, e ele faz parte disso ou sendo responsável por este mundo horrível ou como vítima desse mesmo mundo.

Na Alemanha o grupo de pintores Die Brucke (a ponte) representou o movimento expressionista numa busca de uma ruptura completa com o passado. Suas obras apresenta a comunhão do homem com a natureza, o uso de cores berrantes, e multidões.

 Em síntese as obras visuais:

  • Apresentam uma estética própria, disforme, destorcida. Uma estética do “feio”. Não trabalha com a harmonia, beleza e calma, traz uma visão perturbadora.
  • O sentimento do sujeito representado na obra, transparece na sua forma corporal. (Sentimentos Plásticos).
  • Esta deformação e sentimentos plásticos são obtidas com o uso de cores contrastantes e pinceladas violentas, que resulta numa técnica que chamamos de empastamento, tornando a obra sensorial. 
  • O uso de cores e formas para transmitir o que se sentia em relação às coisas que pintavam e o que desejavam que outros sentissem. Não se importava com a reprodução exata da natureza.

No Brasil, Cândido Portinari foi um pintor influenciado pelas ideias expressionistas, tendo como maior exemplo a sua obra Os retirantes, nela há o uso das pinceladas violentas e dos sentimentos plásticos perceptíveis na forma de representação de seus personagens, seus corpos esqueléticos são o retrato da dor e miséria que viviam.

As propostas e experimentos do movimento expressionista atravessaram as gerações e influenciaram outro movimento entre 1943-1970, tanto na Europa como nos Estados Unidos, o Expressionismo Abstrato.

Na música

No movimento expressionista, os compositores demonstravam as suas emoções mais profundas e intensas. As harmonias eram extremamente cromáticas, o que levava à atonalidade e as melodias chegavam a ser ásperas. Nas músicas expressionistas, os sentimentos mais intensos, profundos e desesperados poderiam ser ouvidos. Noite Transfigurada (1889), de Schoenberg, é uma composição expressionista.

Na literatura:

O Subjetivismo se dá pela análise do subconsciente do indivíduo pelo uso das palavras, e de como o narrador percebe o sujeito em questão. O pessimismo recai sobre o absurdo da existência, como é absurdo viver em um mundo em que os sujeitos são obrigados a sobreviver. Os textos trazem uma desconstrução do belo. O narrador neste tipo de texto não intervém, normalmente é um mero espectador, ele sabe tudo o que se passa com os sujeitos, mas geralmente não apresenta a mínima compaixão com estes personagens. As metáforas são grotescas e pesadas mostrando quão o mundo real é deformado. Um grande exemplo é A metamorfose de Franz Kafka, neste livro, o protagonista, Gregor Sansa, vê-se numa manhã qualquer transformado numa barata gigante, esse fato muda toda a dinâmica da família que era acostumada a ser sustentada apenas por ele.

Para saber mais…

Aslan, Odette, O ator no Século XX: evolução da técnica, problema da ética. – São Paulo: Perspectiva, 2005
Araujo, Inácio – Cinema o Mundo em Movimento Editora Scipione, 1995
Duarte, Rosália – Cinema & Educação, Editora Autêntica, 2017.
Canton, James, O livro da literatura / Tradução Camile Medrot, 1. Ed. – São Paulo: Globo, 2016.
Heliodora, Barbara, O teatro explicado aos meus filhos / Barbara Heliodora – Rio de Janeiro: Agir,2008.
Aspectos do teatro ocidental / Fulvia Moretto, Sidney Barbosa. São Paulo: Editora UNESP, 2006.
Gompertz, Will Isso é arte? 150 anos de arte moderna do impressionismo até hoje, Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
Gombrich, E.H A história da Artes, Rio de Janeiro, LTC, 2009
Rosa, Nereide S Santa Retratos da Arte, São Paulo, Leya 2012
Vitorino, Larissa, Música faz: a arte musical na prática escolar: ensino médio, volume único, Brasília, DF: HTC, 2013.

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